Qual a primeira coisa que vem à sua cabeça quando pensa em viajar para o Nordeste? Praias paradisíacas, certo? Mas caso queira fugir do “óbvio”, há uma excelente opção no sertão nordestino, na divisa dos estados de Sergipe e Alagoas: os cânions do Rio São Francisco. Estive lá em agosto de 2018 e conto um pouco sobre como foi a experiência.

Preparativos e como chegar

As cidades mais próximas aos cânions são Canindé de São Francisco/SE (200 km de Aracaju) e Piranhas/AL (270 km de Maceió), separadas apenas pelo próprio Velho Chico. Mas o aeroporto que atende a região fica a cerca de 80 km das duas cidades, em Paulo Afonso/BA.

Como o meu roteiro de 10 dias previa também conhecer a Foz do São Francisco e as opções de voo de São Paulo para Paulo Afonso eram escassas (na época em que comprei as passagens eram apenas um ou dois voos semanais da Azul para a cidade baiana), acabei optando por desembarcar em Aracaju e alugar um carro. É possível fazer passeios de um dia no esquema bate-volta a partir de Maceió e também da capital sergipana, mas o percurso pelas estradas de pista simples leva umas 6 horas (considerando ida e volta). Acho muito cansativo, mas há quem prefira. Decidi passar duas noites por lá.

O segundo passo foi escolher a hospedagem. Canindé tem poucas opções e o melhor é se hospedar em Piranhas, que por ser uma cidade histórica, possui uma rede hoteleira mais estruturada. A maior parte dos hotéis e pousadas fica na parte histórica, à margem do Velho Chico. Como viajei sozinho, mas estava de carro, optei por um hotel mais distante, porém um pouco mais em conta.

Fiquei no Dunen Hotel, localizado num centro comercial na parte nova de Piranhas. O hotel é novo e as instalações são impecáveis. Fiquei positivamente surpreso com tudo e o custo-benefício foi ótimo. Quarto e cama super confortáveis e um café da manhã mais do que completo servido no restaurante ao lado, com diversas opções de comidas típicas locais. Quem não estiver de carro, entretanto, pode se incomodar com a distância até o centro histórico de Piranhas. Talvez esse seja o único ponto negativo do local, mas no meu caso não causou impacto nenhum.

As estradas sergipanas e o centro histórico de Piranhas

Cheguei ao Aeroporto de Aracaju na hora do almoço e assim que peguei o carro já botei o pé na estrada. O percurso de cerca de 200 km até Piranhas é um pouco demorado pois as estradas que ligam o sertão à capital sergipana são todas de pista simples e muitas vezes você precisa passar por dentro de cidades e povoados. Como aproveitei para também curtir um pouco as paisagens, cheguei a Piranhas no fim da tarde. Um dos motivos para eu ter optado por desembarcar em Aracaju foi também as condições das estradas, que estão longe de ser perfeitas mas são melhores que as alagoanas (caso tivesse optado por chegar em Maceió).

Pegando estrada para Piranhas
Pegando estrada para Piranhas

Parei um pouco antes de chegar ao hotel para tirar as primeiras fotos já na barragem da Hidrelétrica do Xingó, que fica na estrada que liga Canindé a Piranhas. Depois de deixar a bagagem no hotel e tomar um banho, fui até o centro histórico de Piranhas para jantar. Num dia de semana fora de temporada, não havia muitas opções disponíveis, mas consegui comer bem e dar a primeira volta pela cidade muito bem preservada, que se orgulha de ter hospedado o Imperador Dom Pedro II em uma viagem que ele fez ao Nordeste.

Cânions e Hidrelétrica do Xingó

Encontrei duas opções de passeios para os cânions: pelo Restaurante Carrancas, em Canindé, e pelo Restaurante Castanho, em Olho-d’água do Casado/AL. Optei pelo segundo e logo cedo fui até a cidade alagoana vizinha a Piranhas. O passeio foi feito de lancha e incluiu uma parada para mergulho em meio aos cânions, que já serviram de cenário para diversos filmes e novelas nacionais (como Velho Chico, Cordel Encantado e Amores Roubados).  E a paisagem é realmente cinematográfica… chegando aos locais de mergulho, é possível contratar um barco a remo para conhecer as grutas, onde o cenário é ainda mais deslumbrante.

Opção de barco para passeio pelo Rio São Francisco
Uma das opções para o passeio pelo Rio São Francisco
Vista dos cânions
Vista dos cânions
Outra vista dos cânions
Outra vista dos cânions

O almoço (pago à parte) foi servido no Restaurante Castanho, que fica à beira do São Francisco. Lá também é possível curtir uma piscina com borda infinita e descansar nas redes enquanto observa a paisagem. No meio da tarde, a lancha partiu de volta para o ponto de embarque em Olho-d’água do Casado. Peguei a estrada logo de cara para chegar a tempo de fazer a visita à hidrelétrica do Xingó, em Piranhas.

Restaurante Castanho
Restaurante Castanho

A visita à usina é feita no carro do próprio visitante, somente acompanhado de algum guia credenciado que fica no centro de visitas da Chesf (empresa estatal responsável pela operação da hidrelétrica). Antes do passeio propriamente dito, é mostrada uma maquete gigantesca da barragem e um vídeo que mostra como foi o complexo processo de construção da estrutura sem causar grandes impactos na vida do rio até seu encontro com o mar.

Vista a partir da estrada
Vista a partir da estrada

Depois da parte “teórica”, parti com o guia até o topo da barragem, de onde foi possível constatar como o nível do Velho Chico, que enfrentava uma seca histórica desde 2014, estava baixo. Em 2018 ele atingiu os menores níveis já registrados. A visita segue até o “pé” da barragem, onde estão as estruturas responsáveis pela geração de energia. Tudo muito grande e impressionante. Mas devido à estiagem, a maior parte das instalações estava ociosa na data da visita.

Parte do equipamento responsável por gerar energia no Rio São Francisco
Parte do equipamento responsável por gerar energia no Rio São Francisco

Rota do Cangaço

Um dos motivos para eu não ter escolhido fazer um bate-volta a partir de Maceió ou Aracaju foi a possibilidade de fazer outros passeios interessantes, como o já citado à Usina do Xingó. Outro, é o passeio de catamarã até Poço Redondo/SE para fazer a Rota do Cangaço, uma trilha que leva até o local onde Lampião e seus cangaceiros foram mortos em uma emboscada.

Rota do Cangaço
Rota do Cangaço

Como eu fui a única pessoa que apareceu para o passeio no porto de Piranhas, fui de lancha, em vez do catamarã. A trilha também foi com guia “particular” (vantagens de viajar sozinho em baixa temporada). O percurso é relativamente tranquilo, mas o calor pode atrapalhar um pouco. Nada que umas garrafas de água não ajudem a resolver. No caminho, é possível ver animais e plantas típicos do sertão. Ao chegar na Gruta do Angico, onde aconteceu o tiroteio, o visitante pode ver inclusive as marcas de bala que ficaram eternamente cravadas nas pedras. A sensação é única.

Gruta do Angico
Gruta do Angico

O ponto de partida é o Cangaço Eco Parque, onde almocei e também aproveitei para dar um mergulho no rio.

Últimas voltas por Piranhas

Na volta a Piranhas, fui ao Museu do Cangaço, que funciona na antiga estação de trem da cidade, ao Mirante Secular (haja perna pra subir tantos degraus) e ao Café da Torre, que funciona em horário bem restrito mas vale a experiência no fim de tarde.

Escadas do Mirante Secular
Escadas do Mirante Secular
Detalhe vista Mirante Secular
Detalhe vista Mirante Secular
Vista Mirante Secular
Vista Mirante Secular

No dia seguinte, antes de botar o pé na estrada rumo a Penedo/AL para conhecer a Foz do São Francisco, ainda dei uma última volta por Piranhas para comprar lembranças no centro de artesanato e conhecer a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, onde também há um mirante com vista panorâmica num ângulo oposto ao do Mirante Secular.

Vista oposta á do Mirante Secular
Vista oposta á do Mirante Secular

Os dois dias e três noites foram mais do que suficientes para conhecer todos os principais pontos turísticos da região, num roteiro que incluiu conhecer belezas naturais e locais importantes para a história do Brasil. Se possível, vá com tempo. Você vai ver que o passeio vale muito mais do que um simples bate-volta.

Texto e fotos by Rodrigo Masaia.

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