Mais do melhor do Uruguai – Montevidéu

E seguimos com o nosso guia com o melhor do Uruguai, nossa jornada vai agora para Montevidéu.

Dia 6 – Tristan Narvaja e o Centenário: a sensação de ser uruguaio

Na manhã de domingo, o ônibus para Montevidéu saiu às 10h15. Aí já começou a bater a nostalgia, pois era o último destino da viagem. Na estrada, mais uma vez a paisagem era de tirar o fôlego. A viagem durou umas três horas, já que é impossível o ônibus ir direto (por quê????). Houve paradas em Maldonado e no aeroporto.

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Trecho da paisagem na Ruta Interbalneária, voltando a Montevidéu

Fiquei hospedado no Che Lagarto, que fica próximo ao Terminal Tres Cruces. Fomos a pé até lá para fazer o check in. Logo de cara, o alívio. Já na recepção deu pra perceber que o hostel era de outro nível, apesar de ser mais em conta do que os anteriores. Lá é tudo limpo, as instalações são novas e a segurança é quase perfeita. Só os lockers deixam a desejar. Mesmo trancados, era possível pegar qualquer coisa dentro deles apenas levantando o colchão, já que ficavam sob os beliches.

Deixamos as malas e fomos para a Feira de Tristan Narvaja, o único motivo para eu não ter ficado todo o fim de semana em Punta, quando fechei o roteiro da viagem.

A Tristan Narvaja é uma rua que fica na região central, próxima à 18 de Julio. A feira acontece todos os domingos e não é como as nossas, onde basicamente encontra-se frutas, verduras, legumes, pastel e caldo de cana. Lá também tem roupa, antiguidade, coelho, cortador de unha, passarinho, queijo, capivara de porcelana…

E as barracas ocupam também os quarteirões das ruas laterais. A movimentação é intensa e a impressão que fica é a de que você não vai conseguir ver tudo. Infelizmente, chegamos já quando a galera começou a desmontar as barracas. Só que deu tempo de provar o melhor queijo parmesão da história (trouxe um quilo pra casa) e os “bolinhos de algas” vendidos por um chinês a módicos UY$ 20 pela porção com três.

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Visão parceira da feira da Tristan Narvaja

A aparência era meio suspeita e, num país onde o consumo de maconha é legalizado (apesar de controlado), gerou teorias na minha cabeça. Mas não tínhamos almoçado, o gosto era bom e não passamos mal. Isso é o que importa.

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O bolinho suspeito

Voltamos ao hostel, almojantamos, demos uma arrumada nas coisas e saímos para o Estádio Centenário, afinal, tínhamos os ingressos para o Peñarol x Defensor Sporting. O jogo estava marcado para 20h00, ou seja, quando começaria a escurecer. Fomos a pé e nem deu para perceber quando entramos no Parque Battle, onde está o complexo esportivo. Como bom paulistano, fiquei esperando passar por algum portão que separasse o verde do resto da cidade. Mas os parques lá são todos abertos e você nem nota quando está dentro. Um quê de primeiro mundo. Que foi por terra quando vimos o tamanho da fila da arquibancada.

Era quilométrica e se perdia em meio às árvores. Foi difícil encontrar o final, mas pelo menos não foi tão demorado para entrar. Depois da “semirrevista” da polícia uruguaia, a sensação foi de espanto. O Centenário é um palco histórico do futebol mundial. Sede da primeira final de Copa do Mundo, em 1930. Só que está mal das pernas.

Nas escadas que dão acesso às arquibancadas, o cheiro de urina é forte e as paredes com tinta descascada são repletas de pichações. Um pecado. Chegando aos assentos, a visão é espetacular. O estádio é imenso. Mas os assentos são de concreto, meio desgastados.

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O acesso às arquibancadas do Centenário. Aparência e aroma não muito agradáveis

Se a estrutura deixa a desejar, a torcida compensa. Os carboneros fazem um show à parte. Em alguns momentos, deixei de prestar atenção no jogo só para assistir aos 33 mil torcedores que pularam e cantaram durante os 90 minutos mais acréscimos. Voltei pro Brasil torcendo um pouco para o Penãrol.

Ah! O jogo também valeu a pena! O Defensor saiu na frente, mas o Peñarol virou ainda no primeiro tempo e humilhou no segundo. Placar final: 5 a 1, com dois gols do colombiano Murillo e mais três do ídolo Diego Forlán. Show completo!

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O gigantesco Centenário estava bem longe de sua lotação máxima, mas mesmo assim o número de torcedores foi expressivo: passou da casa dos 30 mil

A larica chegou com força depois do jogo e não tínhamos muitas opções para comer. Por sorte, o Tres Cruces fica no meio do caminho entre o Centenário e o hostel e tem restaurantes 24 horas. Apesar de já ser relativamente tarde, as ruas estavam bem movimentadas por conta do calor e voltar a pé foi super tranquilo.

Esse domingo em Montevideú foi um dos dias mais interessantes, pois eu me senti como um montevideano. Indo à Tristan Narvaja e ao jogo do Peñarol, passei a me sentir, mesmo que por pouco tempo, parte de tudo aquilo. É como se eu estivesse integrado àqueles momentos.

Dia 7 – Ciudad Vieja e o Teatro Solís

Dormir não foi muito fácil. A cama que eu estava ficava grudada na janela e a rua é bem movimentada. Sempre que estava pegando no sono, passava um ônibus ou alguma moto para me acordar. Problema resolvido na manhã de segunda, quando pedi para trocar de cama.

Aproveitei as primeiras horas do dia para fazer um reconhecimento de território. Fui a pé até a Ciudad Vieja pela 18 de Julio. Mais ou menos uns três ou quatro quilômetros de caminhada. Foi bom para observar a movimentação da cidade em sua parte mais agitada.

No caminho, passei pela sede da Intendência de Montevideo (que é a sede do governo departamental, equivalente aos estados aqui no Brasil), Universidad de la Republica, Columna de la Paz (marco zero da cidade), diversas casas de câmbio e algumas praças – quase todas com wi-fi. E foi na principal delas, a Independencia, onde estão a sede da Presidencia e o mausoléu do General Artigas, que uma conversa me chamou a atenção.

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A 18 de Julio com a Columna de la Paz ao centro, o marco zero da cidade

Estava eu de mochila nas costas, camisa do Uruguai e câmera na mão. Turistão clássico. Não demorou muito e um cara me abordou oferecendo um panfleto do restaurante para o qual ele trabalhava. Agradeci pela dica, mas ele continuou falando. Perguntou há quanto tempo estava lá e se já tinha conhecido a cidade. Eu disse que era meu segundo dia em Montevidéu e estava, por enquanto, apenas conhecendo o centro. Simpaticamente, ele já começou a indicar as visitas ao Palácio do Governo, ao prédio da Presidencia e ao “Mausoleo a José Artigas, mi libertador”. Foi com essa frase que eu finalmente entendi a dimensão da veneração dos orientales a Artigas. É uma figura que se identifica com o povo uruguaio e a recíproca é verdadeira. E é algo inimaginável aqui no Brasil. Ou vai dizer que você já se referiu a Dom Pedro I como o “seu libertador”? Ou viu alguém fazendo isso?

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A Plaza Independencia com o monumento de Artigas ao centro, o Palácio do Governo à direita e o Palácio Salvo, um dos prédios mais antigos da cidade, ao fundo

Enfim, agradeci as dicas (que foram bem úteis) e segui a caminhada. Entre o hostel e a Plaza Zabala, já na região portuária, encontrei dezenas de casas de câmbio e comprovei que o melhor a se fazer mesmo é pesquisar. Se de um lado da esquina você trocava R$ 1 por UY$ 7,10, atravessando a rua era possível fazer o câmbio por UY$ 7,50. Encontrei a melhor taxa na Calle Sarandí, um quarteirão depois da Independencia: UY$7,70. Na hora de cambiar, pesquise, pesquise, pesquise, pesquise, pesquise e pesquise. Você nem vai notar que está fazendo isso enquanto caminha e isso pode lhe valer alguns pesos a mais – ou reais a menos, dependendo do estágio da viagem.

Utilizando o wi-fi da Zabala, consultei qual o melhor caminho para voltar, já que o sol estava a pino e eu morrendo de fome. Desci duas quadras e peguei um ônibus que me deixou próximo ao Che Lagarto.

Dica: Baixe o Moovit no seu celular. O aplicativo é espetacular, funciona como um Waze do transporte público. Eu já usava em São Paulo, mas numa cidade desconhecida ele foi ainda mais útil. Você só precisa do sinal de internet no momento de traçar a rota, depois ele usa apenas o GPS. Ou seja, cace um wi-fi, insira o endereço desejado e espere ele oferecer as rotas possíveis. Escolha a melhor pra você e dê o “começar”. A partir daí ele vai te guiar, indicando inclusive quantas paradas faltam para o seu destino. Quando estiver próximo, o celular vai vibrar que nem louco, mas você com certeza vai descer no lugar certo.

Depois do almoço no hostel, me despedi da Joana, que estava voltando ao Brasil e fui a pé novamente pela 18 de Julio. Dessa vez, parei na Intendencia, um dos prédios mais altos da cidade, para subir ao Mirador Panorámico. O elevador é panorâmico também e a subida dos 20 e poucos andares foi um pouco assustadora para o acrofóbico que vos fala. Mas venci.

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A fachada da Intendencia e a vista da cidade do alto do prédio

A visita é de graça e a vista é linda. Como o país é quase que totalmente plano e os prédios estão concentrados na região central, a impressão é de que é possível enxergar o país todo lá de cima. Só que os horários são meio restritos: antes das 16h já estava fechando.

Continuei até a Plaza Independencia e visitei o mausoléu do Artigas. As paredes são marcadas por frases do general e uma espécie de linha do tempo de sua vida. No centro, os restos mortais são protegidos por dois guardas que parecem que vão te atacar da próxima vez que você tirar uma foto com flash. Mas é só cara feia mesmo… as fotos são permitidas.

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O mausoléu de Artigas com datas importantes da sua vida na parede e frases marcantes acima da urna com os restos mortais

Na saída, hora de conhecer um dos pontos turísticos mais procurados de Montevidéu, o Teatro Solís. É lindo por fora mas, na minha opinião, a melhor parte é a interna. Quando não há espetáculos, são realizadas visitas constantes em espanhol, português e inglês em horários agendados. Quando cheguei, faltavam 20 minutos para a próxima rodada de visitas. Comprei o ingresso pelo justo valor de UY$ 60 (pagaria até mais).

O prédio histórico é muito bem preservado e a guia (uruguaia) era muito atenciosa e falava português melhor do que muito brasileiro. Passamos pelo hall de entrada, salão principal de espetáculos e o auxiliar também. Não é permitido permanecer por muito tempo dentro das salas para não prejudicar o cronograma de ensaio das peças, mas o tempo foi suficiente para admirar a riqueza de detalhes e simultaneamente a riqueza de tudo aquilo. São aproximadamente 40 minutos de visitas e vale muito a pena. Só não deve ser melhor do que assistir a um espetáculo de verdade.

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A visão dentro do salão principal do Solís é de cair o queixo

Quando eu saí ainda estava claro, então… mais caminhada! Segui pelas peatonales já praticamente vazias – comparei em pensamento com ruas como a XV de Novembro e a Direita, no Centro de SP… jamais estariam vazias no fim de tarde – até o Mercado del Puerto, mais uma vez só para conhecer. Depois, resolvi seguir pela avenida que separa o mercado do porto em si, uma via já mais deserta. Só havia galpões.

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O centro também tem alguns prédios abandonados, dando um tom de realidade à paisagem

Pouco depois encontrei um terminal de ônibus, o Ciudadela. Ufa! Agora já posso voltar pra “casa”. Não encontrei wi-fi e não vi nenhum ônibus com “18 de Julio” no para-brisa. Solução: quem tem boca vai a Roma (ou a Montevidéu, no caso). Mesmo com uns 58942 ônibus parados, nenhum deles seguia por lá. Um dos motoristas me indicou o caminho e tive que voltar praticamente para onde estava depois de sair do Solís. No ponto, tive que perguntar para mais duas pessoas, simpáticas, que confirmaram com o motorista para mim se ele passava pelo ponto onde eu deveria descer. Embarquei, paguei os UY$ 27 do valor do boleto e retirei o comprovante da maquininha.

Nesse momento, fiquei orgulhoso de mim. Já tinha aprendido que você compra o comprovante da viagem. Das outras vezes, larguei pra trás e levei bronca dos motoristas ou dos cobradores. Eventualmente, sobe um inspetor para verificar se todos pagaram devidamente. Portanto, você só pode jogar o papel fora depois de descer do ônibus. O motorista, simpático, avisou quando eu deveria descer.

Falei há pouco sobre a utilidade do Moovit. Só que mesmo sendo necessário o sinal de internet apenas para traçar o trajeto, acabei me ferrando nesse caso (e só nesse caso). Por sorte, quando se está no Uruguai, os turistas são bem tratados pelos locais e consegui voltar com facilidade. Nesse ponto, notei uma certa semelhança com nós brasileiros. Em geral, somos mais educados com turistas do que com “nós mesmos”.

No próximo texto, a quarta e última parte da viagem, com direito a passeio de bike pela rambla, visita ao Mercado del Puerto e volta pelo badalado bairro de Pocitos.

Texto e fotos by Rodrigo Masaia.

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