Todo o charme de Punta Del Este

No primeiro texto, você acompanhou a passagem por Colônia do Sacramento. A viagem de 10 dias pelo Uruguai foi realizada em fevereiro de 2016. Agora você segue por Punta Del Este, neste “mini guia” de Como aproveitar o melhor do Uruguai. Sigam essa viagem conosco…

Dia 3 – Cartão de crédito é coisa do futuro

O dia amanheceu com céu limpo e sol escaldante – ou seja, voltou a ser um verão uruguaio normal. Às 9h15, pontualmente, o ônibus da COT saiu do terminal rodoviário de Colônia. O serviço da empresa é impecável. Ar condicionado e wifi funcionando plenamente e funcionários bem educados. Se for andar de ônibus no Uruguai, prefira sempre a COT.

Quando comprara a passagem no dia anterior, pensei que a atendente estivesse exagerando quando disse que a viagem duraria três horas até Montevidéu. Pois o ônibus entrou no Tres Cruces exatamente às 12h15. Nessas três horas, foram diversas paradas ao longo do caminho para embarque e desembarque de passageiros e alguns desvios de rotas para fazer entregas (!). Pelo menos umas três vezes o cobrador desceu apenas para entregar encomendas que estavam no bagageiro.

Chegando à rodoviária, comprei a passagem para Punta del Este, meu destino final. Não há linhas diretas do “leste ao oeste” e vice-versa, a escala na capital é obrigatória. Comprei o bilhete da Turil para três e pouco da tarde e como não estava a fim de ficar carregando minhas coisas nesse período, estava disposto a deixar minha mala no guarda-volumes do terminal. A fila era grande, esperei uns 15 ou 20 minutos; tempo suficiente para ler, reler e ler outra vez todas as informações que estavam afixadas no quiosque. Entre elas, a mais interessante: para quem tem um bilhete de chegada ou partida do Tres Cruces do mesmo dia, a estadia dos pertences é grátis por duas horas.

Quando decidi viajar, já tinha em mente a ideia de ir a um jogo de futebol no Centenário, mas a tabela do campeonato uruguaio só foi definida nos últimos momentos. Na minha última noite em Colônia, pesquisei novamente e vi que o Peñarol enfrentaria o Defensor Sporting na noite do domingo seguinte e que as vendas já haviam começado. Um dos pontos de venda da rede Redpagos (uma espécie de casa lotérica misturada com banco e casa de câmbio que tem unidades a cada esquina) ficava ao lado do Tres Cruces.

Comprei o bilhete mais barato (UY$200) para o setor popular e que tinha um “2×1” ao lado do preço. Fiquei pensando um bom tempo até entender que aquilo significava que o ingresso valia para duas pessoas. No fim das contas, a entrada era uma pechincha: uns R$ 13.

Ingresso garantido, hora de comer. A rua ao lado do Tres Cruces que dá acesso à 18 de Julio tem alguns restaurantes e eu preferi comer por lá para escapar da experiência de praça de alimentação, que é igual e sem graça em todo canto. Entrei no primeiro, com ar condicionado e wifi (o primeiro era essencial para suportar o calor e o segundo para ter algum tipo de comunicação com o resto do mundo). Gato escaldado, já perguntei logo de cara se aceitavam cartão. Resposta: só Visa. Pensando no desconto, saí e entrei no segundo restaurante que vi: só dinheiro ou cheque. Parei no terceiro e: mesma situação. Desencanei e voltei pro shopping (ar condicionado, seu lindo). Comi na La Passiva, uma rede que seria a Redpagos da alimentação. Tem em todo canto e a variedade é grande (dentro dos padrões uruguaios para comida): desde quiosque na praça de alimentação com chivito, hambúrguer e chorizo até restaurantes mais refinados oferecendo massas e pizzas.

Consegui pagar com o cartão. Mas não antes da menina do caixa perceber, depois de três tentativas, que meu cartão tinha chip e que ficar passando na lateral da maquininha não levaria a nada. Quando a alertei, ela ficou meio espantada, como se aquilo tivesse vindo da década seguinte. Pagamento aprovado, tive que assinar a nota e colocar o número do meu documento. Quando peguei meu primeiro cartão de débito / crédito pessoal, quatro anos antes, isso já era coisa do passado.

A conclusão: os uruguaios realmente não sabem usar cartões. E se a sua bandeira for Mastercard, como a minha, terá mais problemas ainda. Tente sempre pagar com cartão, o desconto do IVA é vantajoso, mas procure sempre uma segunda alternativa, porque lá não é como no Brasil, onde hoje em dia até ambulante e feirante já possuem máquinas para cartão. Os poucos estabelecimentos que aceitam esta forma de pagamento trabalham geralmente só com Visa. Se for pra pagar em dinheiro, prefira algum restaurante que aceite o pagamento em reais. Em Colônia há alguns próximos ao Yatch Club e em Montevidéu, praticamente todos no Mercado del Puerto que estavam cotando o real a UY$ 8 (lembrando: nas casas de câmbio, a melhor taxa que encontrei foi UY$ 7,70).

No início deste tópico, eu fiz vários elogios à COT. Então porque comprei passagem com a COT? Porque as saídas dos “coches directos” da COT eram em horários ruins para mim. Preferi ir de Turil mesmo sabendo que o serviço não era melhor. Cheguei na plataforma e o ônibus parado era o “semidirecto”, com parada em Piriápolis e mais alguns lugares. Quando disse que desceria em Punta, a fiscal e o motorista tentaram me explicar que eu deveria trocar meu bilhete no guichê, porque tinham me vendido o errado. Eu, obviamente, não entendi. Além disso, faltavam cinco minutos para a saída e eu não queria arredar meu pé dali. Até que ela pegou meu bilhete e foi trocá-lo. Enquanto aguardava, um trio de idosas simpáticas puxou assunto comigo e perguntou de onde eu vinha. Com paciência, me explicaram a situação e só então eu entendi que tinham me vendido a passagem errada. A funcionária voltou, me despedi das senhoras e embarquei no ônibus que estava estacionado ao lado.

O tempo estimado de viagem era de duas horas e meia. Comprei a passagem para a ventana, como havia feito no trecho Colônia – MVD. As paisagens são de tirar o fôlego, com os pampas a perder de vista, intercalados com os arroyos desaguando no rio da Prata. A Ruta Interbalnearia e a Ruta 1 têm paisagens deslumbrantes. Jamais durma!

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A paisagem sem fim na Ruta Interbalnearia

Apesar do “directo” no letreiro, o ônibus parou em Maldonado, capital do departamento e cidade vizinha a Punta del Este. Cheguei no finzinho da tarde e fui a pé até o hostel onde ficaria hospedado. O The Trip fica a duas quadras da rodoviária. Depois do check out, descobriria que esse é um dos de seus dois únicos pontos positivos. Fiz o check in ao som de O Rappa e já senti que estava em casa. O funcionário que me atendeu era super gente boa, o que contribuiu para isso também. Quando entrei no quarto, primeira decepção. Eram 12 camas – ok, isso eu já sabia – e a minha ficava no canto. O pé direito era baixo e as janelas pequenas. Ficavam todas fechadas e o clima era abafado. Os beliches não poderiam ser altas, para quem fica na cama de cima poder levantar sem problemas. Consequência: nenhuma mala cabia nos lockers abaixo delas e o corredor era uma bagunça só, lotado de bagagens. Depois de atravessar o caminho de obstáculos, cheguei à minha cama, que ficava colada na parede e ao lado do ar condicionado, que liguei antes de começar a derreter. Arrumei minha cama, ajeitei minhas coisas e saí para a primeira caminhada.

Fui até a Playa Brava, onde tive o primeiro contato com mar. Vi La Mano de longe e fui caminhando descalço pela areia até a escada que dá acesso à península. Nunca fui aos Estados Unidos, mas a primeira coisa que pensei quando cheguei à calçada foi: agora entendi porque chamam Punta del Este de “Miami da América do Sul”. As ruas largas pavimentadas com concreto, os prédios baixos e as casas sem portões me levaram de volta pra minha infância, quando assistia a novela América. Logo, “A Horse With No Name” começou a tocar na minha mente e imaginei a Déborah Secco atravessando a rua… Talvez eu tenha exagerado, mas foi mais ou menos isso.

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Uma das ruas da Península. Ao fundo, a Playa Mansa

A Avenida Gorlero tem um quê de Ocean Drive, com suas lojas de grife e carros de luxo passando. Passei por alguns hotéis e muitos turistas de nariz empinado até chegar à Playa Mansa. Olhando as placas dos carros, já deu pra entender que ali era a praia dos uruguaios e argentinos cheios da grana, além de chilenos e gaúchos – não menos endinheirados. Vi o sol se pôr (mais uma vez espetacular) e voltei pro hostel depois de passar pelo Conrad, hotel & cassino que fica bem próximo e é o mais badalado da cidade. Tirei umas fotos e parei no mercado para comprar a “janta”, que se resumiu a um sanduíche de pão de forma com presunto e queijo. Fui tomar banho e tive uma boa notícia: havia água quente. Aí, percebi que nem tudo era perfeito: a mangueira da ducha estava furada. 70% da água vazava pelo furo e só o restante chegava à ducha em si. “Solução” encontrada: enquanto uma mão ensaboava, a outra segurava a mangueira acima da cabeça.

Saí para outra caminhada, a fim de conhecer melhor a Gorlero. A avenida começa na rodoviária, tem um cassino logo no começo e depois é só loja e restaurante até a Plaza Artigas (sempre ele), onde fica a feira de artesanato de Punta. Dei uma volta por ela e logo decidi voltar. Havia saído de bermuda e o vento gelado estava me congelando. Cara, como venta naquele país! Como está à beira-mar e é quase que totalmente plano, a ventania faz a festa no Uruguai. E a temperatura facilmente cai uns 10 graus em relação ao que estava durante o dia.

Quando voltei ao hostel, o bar estava bombando. Como estava cansado e a fim de economizar dinheiro, preferi ir dormir. Quando me deitei, a primeira constatação, meio óbvia: minha cama estava colada na parede que separa o quarto do bar e eu ouvia absolutamente TUDO. A música estava alta pra cacete, obviamente. As pessoas falavam alto pra caramba, obviamente. Aí, veio o susto: barulho de ÁGUA escorrendo. Pensei que o vizinho de cima tivesse derrubado uma garrafa aberta. Mas espera… não tinha ninguém na cama de cima. Aí me dei conta de que a tubulação de esgoto dos banheiros que ficam no primeiro andar passavam por dentro dessa mesma parede. PORRA! Eu conseguia ouvir a água passando pelo cano toda vez que alguém tomava banho ou dava descarga. Para completar a sinfonia, pernilongos por todos os lados.

Não me pergunte como mas, apesar de tudo isso, consegui dormir bem. O cansaço havia vencido, felizmente.

Dia 4 – A frieza de Punta del Este

Acordei por volta das 7h, com o barulho do povo voltando da balada, todos ainda bêbados. Fiquei um tempo enrolando na cama e quando levantei não fiz questão nenhuma de fazer silêncio (sim, vingança mesmo). Depois do café da manhã, saí para bater perna pela península. O dia estava nublado, mas a temperatura era agradável, apesar da ventania.

Fui pela rambla, observando as pessoas tomando mate nas pedras enquanto pescavam ou simplesmente assistiam o movimento das ondas. Só entrei para uma das ruas laterais quando vi o farol de Punta, na esperança de ter uma visão panorâmica lá de cima. Só que ele não é aberto a visitação.

Então continuei andando pelas ruas da região, que é estritamente residencial e o que mais me chamou a atenção foi o fato das casas não terem números e, sim, nomes! Cada um batiza do jeito que quer, desde que não haja nenhuma “casa-xará” na mesma via.

Voltei para a rambla e segui andando até o porto, relativamente cheio pois um navio estava atracado. A península é grande, e minha caminhada tomou a manhã inteira. Quando a fome apertou, comecei a procurar por restaurantes, mas todos na região são para quem… digamos… tem maior poder aquisitivo. Consultei o Google Maps, então, para ver como chegar à Gorlero (Dica: o Google Maps tem uma função para salvar mapas offline, o que foi MUITO útil para mim. É uma boa alternativa para quem não pretende se perder em viagens curtas ao exterior.)

Preferi parar numa loja do Devoto (rede de supermercados) e comprar o sanduíche de presunto e queijo. Sentei e comi num banco na calçada mesmo. Enquanto isso, observava o movimento na via mais badalada de Punta. E o que me chamou a atenção foi a frieza de quem passava por lá, em geral, famílias.

Não via sorrisos, brincadeiras, alegria. A impressão que tive é que as pessoas só estavam ali para cumprir uma obrigação. Como se fosse preciso estar em Punta para firmar sua condição social.

Voltei ao hostel e troquei de roupa com a intenção de ir à Playa Mansa. Obviamente, estava vazia. Arrisquei um mergulho, mas logo vi que era cilada. Logo depois ameaçou garoar e eu voltei. Quando o tempo melhorou, fui ao Conrad pois queria ter o gostinho de jogar num cassino. Um funcionário do hostel havia me dito que era possível jogar quantias baixas e também só por “diversão”, sem apostar.

Para se ter uma ideia do alto nível, o ponto de táxi que atende o complexo, que além do cassino tem hotel, restaurante, bar e casa noturna só possui Mercedes e BMW. A imponência e a ostentação do lado de dentro são ainda maiores. Logo de cara, no lounge, uma limusine cravejada de diamantes (brega pra caramba). O cassino estava quase deserto e a grande maioria das máquinas só aceitava apostas em dólar. Quando vi a cotação na casa de câmbio própria deles desisti de jogar. Até que encontrei algumas máquinas que aceitavam pesos uruguaios. Tentei colocar UY$ 20 e a máquina “vomitou”. Peguei outra nota e nada. Troquei de máquina e não consegui. Mais uma. Vômito da máquina. Saquei a nota de UY$ 50 e o resultado foi o mesmo. Até que passou uma funcionária que explicou que a aposta mínima era de UY$ 100, uns R$ 15. Não queria jogar “tanto”, mas já que estava ali… Em determinado momento cheguei a ganhar UY$ 160, mas como preferi continuar jogando, acabei saindo sem nada hehe. Mas valeu pela experiência “inusitada”.

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O “humilde” ponto de táxi do Conrad

À noite a temperatura caiu consideravelmente. Ventava demais e eu não tinha levado blusa (gênio). Fui novamente à Gorlero para jantar (lanche do McDonald’s pode ser considerado janta?) e trocar dinheiro. A melhor taxa que encontrei em Punta foi UY$ 7,60, numa casa de câmbio que fica uns dois quarteirões pra frente da Plaza Artigas.

No hostel, pesquisei sobre como ir à Casapueblo e cheguei à conclusão de que não valeria a pena ir sozinho. Punta Ballena, onde fica o museu-hotel-restaurante-café fica a cerca de 25 km do centro de Punta e a corrida de táxi sairia muito cara, sem contar que eu não conseguiria outro para a volta. Para ir de ônibus, seria necessário pegar um rodoviário com destino a Montevidéu e descer no meio da estrada. Depois disso, mais 40 minutos de caminhada. Abortei a ideia.

Por coincidência, Silvio, Samara e Tatiana, os amigos brasileiros que havia conhecido em Colônia, estavam agora em La Barra, praia vizinha a Punta del Este. Combinei de encontrá-los lá no dia seguinte. Cansado, apenas tomei banho e capotei (com a balada e o barulho do encanamento novamente).

Dia 5 – La Barra é mais legal e a Casapueblo vale o esforço

No café da manhã, conheci a Joana, brasileira que também estava em seu último dia por lá e tinha programado ir para a Casapueblo no fim da tarde sozinha. A possibilidade de companhia acabou me animando e mudei de ideia, afinal, não queria deixar de ter essa experiência.

O micro-ônibus que vai para La Barra e Manantiales (praia vizinha, mais ao norte – ou “menos ao sul”) sai da rodoviária de meia em meia hora. Já que estávamos lá e iríamos para Montevidéu no dia seguinte, aproveitamos para comprar as passagens pela COT.

A viagem até La Barra é bem rápida, dura uns 15 ou 20 minutos e no meio do caminho você é obrigado a passar pela famosa Ponte Leonel Viera, que tem a peculiaridade de ser ondulada. O frio na barriga é inevitável quando se passa por ela. A sensação é de que o veículo vai mergulhar “de cabeça” no Arroio Maldonado. Naquele momento, não havia entendido o motivo para fazer uma ponte daquele jeito.

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A inusitada e ondulada Ponte Leonel Viera

Se Punta del Este tem um quê de Miami, ao entrar na pequena cidade de La Barra tive a impressão de estar em Florianópolis, talvez pela estrada de pista simples que a corta e tem estilo semelhante àquela que liga o centro de Floripa à Lagoa da Conceição e as praias Mole e da Joaquina.

Depois de encontrar os amigos, fomos ao que interessava: a praia. E é linda. Por ser uma praia de mar aberto, as ondas são fortes e às vezes altas, mas com um pouco mais de atenção e cautela, dá pra curtir numa boa. A paisagem é completada pelas pedras que formam pequenas penínsulas nas extremidades.

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A praia em La Barra dá de 10 a 0 em Punta del Este

Na hora do almoço, encontramos um mercado / bar / restaurante daqueles de bairro que você geralmente acha na rua da sua casa. Era simples, sem requintes nem nome na porta, mas os preços eram honestos e o atendimento, ótimo (esse vale indicar: fica na Calle Las Espumas, uma das últimas travessas da avenida principal, a Eduardo Victor Haedo). Tomamos algumas Pilsens e comemos empanadas.

Depois disso, nos dividimos novamente. O pessoal que estava hospedado por lá foi visitar outro local e voltei com a Joana a Punta. Não estive lá a noite, mas pelo que vi e pesquisei, o grande número de bares e restaurantes atrai grande movimentação após o pôr-do-sol. Em resumo: achei La Barra muito melhor que Punta e quando voltar para o Uruguai, certamente ficarei por lá nos dias dedicados à praia.

De dentro do ônibus, vi uma grande movimentação de carros antigos na rambla da Playa Brava. Depois de chegar ao hostel, voltei a pé para ver o que acontecia e descobri que era um encontro de carros antigos com direito a banda de rock ao vivo. Além das relíquias dos uruguaios, colecionadores argentinos e brasileiros também marcavam presença.

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O jipe branco era só um dos vários veículos encontrados durante o encontro

Perguntei a um dos expositores qual era o nome do encontro e com qual frequência eles se reuniam.

“Ah, é o encontro anual de verão que fazemos aqui em Punta.”

“Legal. Então vocês ficam todos os finais de semana do verão aqui?”

“Não, só um fim de semana por ano.”

“Então a data é fixa? Tipo: todo segundo fim de semana de fevereiro?”

“Não, cada ano tem uma data diferente.”

Ou seja: sorte de turista. Com tantos finais de semana no ano, tive a sorte de estar lá justo naquele. (Você deve estar achando isso banal, mas eu senti que minha sorte durante a viagem tinha virado haha). Infelizmente não deu pra ficar muito por lá, porque ainda havia uma viagem considerável até Punta Ballena.

Voltei ao hostel, tomei bronca da Joana pela demora, peguei minhas coisas e fomos para a rodoviária. A viagem foi relativamente rápida, acho que uns 30 minutos. Em determinado ponto tivemos que ir em pé. Apesar de ser um ônibus rodoviário confortável, eles vendem bilhetes para passageiros que fazem trajetos mais curtos viajarem em pé – só que o preço é o mesmo.

Descemos na rodovia, atravessamos num estilo kamikaze – não há outra alternativa – e encaramos a caminhada. Como acabamos chegando com certa antecedência e quando se está viajando há disposição para fazer a pé um percurso que você chamaria um táxi se estivesse em sua cidade, fomos até o extremo da península. Passamos por diversas casas de (muito) alto padrão. Foi provavelmente o momento em que eu me senti mais pobre nos dez dias de Uruguai.

No fim da estradinha, algumas pessoas saltavam de asa delta e outras passeavam por uma feira de artesanato. Por incrível que pareça, foi passando por essa feira que eu entendi o motivo da Leonel Viera ser ondulada. Ou melhor: entendi que não precisa haver um motivo. Um carro local tinha um adesivo na traseira com a imagem da ponte e a frase “be different” abaixo. Se todas as pontes são retas, vamos fazer uma ondulada, oras!

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A vista na estrada de Punta Ballena

Mais alguns minutos andando de volta e chegamos ao Museu-Taller de Casapueblo. Um verdadeiro monumento construído pelo artista Carlos Páez Vilarò num estilo arquitetônico que lembra o encontrado em ilhas gregas.

A Casapueblo funcionou como casa e ateliê de Vilarò até sua morte, em 2014. Dizem que não era difícil encontrá-lo por lá durante uma visita. A entrada para o museu era razoavelmente cara (UY$ 240) mas o local é realmente único. Transitando entre os diversos pavimentos – quase um labirinto – você encontra diversas obras do artista, algumas à venda, um café e algumas varandas para apreciar a obra mais linda do local; esta feita pela própria natureza: o pôr-do-sol.

A vista é inigualável. Para completar o momento, há um sistema de som que reproduz um poema escrito e interpretado por Vilarò em homenagem ao principal protagonista do espetáculo: o Sol. É literalmente de arrepiar. O tipo de experiência que qualquer pessoa merece ter na vida.

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O inigualável pôr-do-sol visto da Casapueblo; vista memorável!

Além do museu e do café, a Casapueblo também tem uma ala separada que funciona como hotel e um restaurante à parte. Também é possível acompanhar o pôr-do-sol de lá pagando uma consumação mínima com valor semelhante à entrada do museu – só que sem o poema de fundo. Se o seu objetivo for só assistir ao entardecer, esta pode ser uma opção mais vantajosa.

O Silvio e a Samara nos encontraram por lá na saída logo depois da anestesiante experiência. Aí veio o choque de realidade: precisávamos voltar, estávamos à pé e já era noite. PER-REN-GUE!    Com a ajuda da lanterna do celular, a parte mais fácil foi a caminhada até a rodovia. Assim que a avistamos, passou um ônibus urbano com “Punta del Este” no letreiro.

A sensação foi de alívio, afinal, ainda havia transporte público naquele fim de mundo. Quando chegamos ao ponto de parada – ou pelo menos ao poste com um ícone de um ônibus na ponta – já desconfiamos. Os carros passavam rápido pra caramba e não havia acostamento. Para completar, o local fica no topo de uma colina e no fim de uma curva. Ou seja: visibilidade zero. Se o busão para, o cara que vem chutado atrás não tem tempo de reação e vira paçoca.

Mas seguimos o que todos tinham nos indicado: é só estender o braço para qualquer ônibus rodoviário para Punta del Este que tenha “local” ou “semidirecto” no letreiro. Estendemos o braço para o primeiro, que passou reto. Ok, acho que não vimos direito. Veio o segundo, que piscou o farol e seguiu. O ponto começou a encher. Veio o terceiro ônibus e… foi embora.

E assim foi durante uma hora. Alguns motoristas piscavam o farol e seguiam viagem, outros nem isso. Depois de uns 45 minutos no ponto, comecei a entrar na rodovia para dar sinal. Quando quase fui atropelado constatei que sim, eles conseguiam nos ver. Com uma hora de espera, a Joana decidiu entrar no restaurante que fica em frente ao ponto para confirmar se realmente ali era um local de parada.

A funcionária confirmou e disse que ligaria na COT para reclamar que os motoristas não estavam parando. Coincidência ou não, o primeiro ônibus que passou depois da ligação atendeu ao nosso pedido. Todos vibram e embarcam. O Silvio e a Samara, que voltariam para La Barra, chegaram à rodoviária em cima da hora, já que o último micro sairia às 22h00, mas no final deu tudo certo.

Jantar na Gorlero, banho (com mangueira da ducha vazando de novo) e sono profundo no hostel (com barulho do bar e do esgoto de novo).

Dica: NÃO descarte a Casapueblo. Mas alugue um carro, nem que seja uma diária apenas. A caminhada e a agonia pela espera do ônibus não valem a pena. Não há táxis para voltar e, mesmo que houvesse, o valor das corridas de ida e volta seria, no mínimo, semelhante ao da locação.

No próximo texto, você acompanha os dois primeiros dias da visita a Montevidéu. Fique ligado!

Texto e fotos by Rodrigo Masaia.

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1 comentário

  1. Melhor que as dicas, fotos e o próprio relato das atrações são os “causos” que enriquecem

    e humanizam o texto…parabéns…!!!

     

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