Uma das perguntas que mais ouvi antes e durante a viagem foi: “mas por que o Uruguai?”. E a resposta, basicamente, pode ser: “por que não o Uruguai”. Um país pacato, com belas paisagens, povo acolhedor, praias para todos os gostos… Tudo isso a preços relativamente em conta (relativamente porque viajei em fevereiro de 2016 – tempos de crise econômica no Brasil e, consequentemente, desvalorização do Real). Cheguei a cogitar alguma praia do Nordeste, mas as passagens estavam muito caras e, como sempre tive interesse em conhecer a República Oriental, acabei decidindo pelos nossos vizinhos. E não me arrependi.

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Da janela do avião, o horizonte sem fim uruguaio. Em primeiro plano, o rio da Prata e Ciudad de la Costa, que fica próxima ao Aeroporto de Carrasco

A preparação

Aproveitando uma promoção, comprei as passagens meio sem pensar com um intervalo de dez dias entre ida e volta. Aí bateu a primeira dúvida. Será que seria muito tempo? Pesquisando na internet, não encontrei nenhum roteiro tão longo no país (alguns semelhantes incluíam a Argentina), o que aumentou um pouco meu receio. Mais uns dias pensando e defini que chegando ao país, já pegaria um ônibus para Colônia do Sacramento e lá passaria um dia e duas noites. Depois, outro ônibus de volta para Montevidéu e mais um até Punta del Este, onde ficaria mais três dias e três noites antes de voltar à capital do país, permanecendo lá até o final da viagem (quatro dias e quatro noites). A ideia era, obviamente, conhecer os principais pontos turísticos e, acima de tudo, entender como é o estilo de vida dos uruguaios. Por isso, a preferência por passar mais tempo na cidade “mais agitada” (nesse caso, poderia ser “menos tranquila”).

Também cheguei a pensar em passar um dia em Buenos Aires, saindo de Colônia. Muitos turistas fazem o caminho contrário, pois os horários da Buquebus (você pode ver nosso post a respeito do Buquebus clicando aqui), empresa que faz o transporte de ferry pelo rio da Prata, são favoráveis. Só que pra quem sai da cidade uruguaia, os horários não são convidativos. Eu teria apenas seis horas para ficar na capital argentina ou então teria que esperar até por volta de meia-noite para pegar o último barco de volta. Além disso, as passagens vão encarecendo se você deixa para comprar em cima da hora, como nos aviões. Acabei desistindo, porque não valeria a pena pagar cerca de R$ 300 para um bate-volta relâmpago numa cidade que exige uns três dias, no mínimo, para ser conhecida razoavelmente bem.

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Um dos barcos da Buquebus próximo de atracar no Porto de Colônia do Sacramento. Se quiser utilizá-lo, melhor planejar com antecedência

Definido o roteiro, contratei um seguro viagem. (Spoiler: não precisei usá-lo – ufa!) Pela Mondial Assistance, paguei uns R$ 150. O investimento é válido, pois a cobertura é bem abrangente e o preço cabe no orçamento das férias. Melhor do que correr o risco de ir parar no hospital depois de comer alguma empanada aparentemente inofensiva e ela não dialogar muito bem com seu estômago. (Spoiler 2: isso aconteceu comigo.) Não foi nada grave a ponto de precisar procurar um médico, mas nesse momento eu me senti aliviado sabendo que poderia contar com o seguro.

Hora de escolher a hospedagem. Viagem sozinho sem pretensão de gastar muito é igual a: hostel. Pesquisei vários nas três cidades e foi difícil encontrar a preços acessíveis – pelo menos para o que eu esperava. O câmbio não favorecia. Encontrei alguns mais baratos entre R$ 45 e R$ 50 a diária, mas em geral não tinham café da manhã e/ou wi-fi (!) e não tinham boas avaliações nos Hostel World e Trip Advisor da vida. CILADA. Então optei por hostels intermediários, na faixa de R$ 70 a R$ 80 por dia.

Por último, deixei para saber o que era melhor fazer com relação ao dinheiro que eu gastaria lá. Em todos os blogs e sites que pesquisei (e pelos quais você, que está aqui agora, provavelmente já passou ou vai passar) era unanimidade: levar real em espécie para trocar lá e usar cartão de crédito em bares e restaurantes era o melhor negócio. Decidi então trocar o mínimo de dinheiro para conseguir ir do aeroporto até Montevidéu e lá procurar por uma casa de câmbio. E se você for procurar pesos uruguaios nas casas de câmbio brasileiras vai constatar que não é fácil encontrar a moeda dos orientais (o nome oficial do país, República Oriental do Uruguai, se deve à sua localização, ao oriente do rio que o nomeia e o separa da Argentina – para mim ainda é estranho… na minha cabeça oriente é Ásia, mas isso não importa) e quando consegue, as cotações são péssimas. Acabei trocando na Confidence a caros UY$ 5,55. Mas não aconselho ninguém a fazer isso. As casas de câmbio do aeroporto têm as piores taxas que encontrei por lá, mas ainda assim são melhores do que no Brasil. Minha dica é: leve dinheiro em espécie suficiente para pagar TUDO que for consumir durante a estadia e troque no aeroporto o MÍNIMO para você conseguir chegar no seu destino inicial. Aí você procura uma casa de câmbio com taxas melhores – e você vai achar várias.

Além disso, habilite seu cartão para poder fazer compras internacionais no débito e no crédito. O governo uruguaio desconta o IVA, imposto local, de compras feitas com cartões internacionais de turistas em bares e restaurantes. Com cerca de 22% a menos na conta do almoço, o IOF de 6% e uns quebrados cobrado pelo governo brasileiro vai pro espaço e você ainda paga mais barato do que em dinheiro. O desconto pode até não vir no comprovante da compra, mas certamente estará discriminado na sua fatura. Além disso, algumas lojas de roupa (sempre com adesivo na porta) têm a chamada tax free, que abate 14% da sua compra, mas a devolução é feita em dinheiro na alfândega e você vai precisar ter todos os comprovantes guardados. Só que mais pra frente eu conto que não é tãããão perfeito assim. (Infos deste parágrafo atualizadas em junho de 2016; pesquise para confirmar se as taxas permanecem as mesmas.)

 

Dia 1 – primeiro contato com Montevidéu e o encanto por Colônia do Sacramento

 

Dia da viagem. Tudo pronto, documentos ok (por estar no Mercosul, o Uruguai não exige passaporte de brasileiros, o RG já basta – na alfândega, CNH não vale; é RG ou passaporte). O avião decolou do Aeroporto Internacional de Guarulhos por volta de 10h30 e às 12h locais (13h de Brasília, por conta do Horário de Verão) já estava no Aeroporto Internacional de Carrasco. No corredor que liga o finger aos balcões da imigração, um cara estava tocando ao vivo no mezanino; só ele, a guitarra e a caixa de som. Desci a escada rolante e quando entrei na fila, descobri o motivo: cheguei ao país no mesmo dia em que os Rolling Stones fariam um show no Estádio Centenário. A ação era dos organizadores para promover o evento.

Consultando o site do aeroporto, ainda no Brasil, já havia visto que uma empresa de ônibus de turismo, a COT, tinha uma linha para Montevidéu com passagem a UY$ 165. Um pouco salgado, porém ainda mais em conta do que táxi ou transfer. Acontece que não encontrei o guichê da COT no saguão e quando fui perguntar no balcão de informações a atendente – simpática como 95% das pessoas que me atenderam no Uruguai – disse para eu esperar no ponto de ônibus do lado de fora por qualquer ônibus com “MONTEVIDEO” no letreiro. E lá fui eu, com uma mala e uma mochila. Ao passar pela porta do saguão, a primeira surpresa com o sol a pino e a temperatura na casa dos 34°. Nenhum sinal de nuvem no céu. Depois de uns cinco minutos, vendo outros ônibus velhos passarem e torcendo para o meu ser melhor, eis que chega um com destino à capital. Só que além de velho, ele já estava meio lotado. Alguns passageiros entraram antes de mim e todos viajaram em pé. Eu fui um dos últimos a conseguir um espaço decente no corredor para me segurar e evitar que minha bagagem voasse em cima de alguém numa curva ou freada brusca. Não demorou muito e o motorista se desculpou (sim! Se desculpou!) com o pessoal que ficou do lado de fora porque não havia mais espaço e eles teriam que aguardar o próximo. Foi mais barato, UY$ 51, mas preferia pagar mais caro em troca de conforto, principalmente para aguentar aquele calor que se fez presente durante toda a viagem. Só no dia do embarque na volta eu descobri que o guichê da COT fica do lado direito (para quem sai do saguão) da plataforma de desembarque, meio escondido no canto e do lado oposto ao ponto de ônibus.

Depois de um tempo, consegui um lugar para sentar no ônibus. Só que isso foi quase na hora de descer, então só deu tempo de ver alguns grandes sobrados e pequenos prédios na Avenida Italia, antes de passar pelo grandioso Hospital de Clinicas, o maior do país, e também por um dos acessos ao Centenário, já lotado de fãs e ambulantes usando e vendendo, respectivamente, todo e qualquer tipo de acessórios relacionados aos Stones. Desembarquei na Plaza de la Democracia, em frente ao Terminal Tres Cruces, que tem esse nome por estar no entroncamento das três principais avenidas de Montevidéu (Italia, 18 de Julio e General Artigas). Mas eu só descobri isso lá pro fim da viagem. Há uma cruz enorme do lado de fora, fiquei procurando as outras duas mas não achei – lógico, elas não existem.

Entrando no Tres Cruces, que é uma rodoviária no piso inferior e um shopping no superior, fiquei feliz por estar novamente num lugar com ar condicionado. Já desci para comprar a passagem para Colônia. Duas empresas operam nesse trajeto: a COT e a Turil. As duas intercalam as saídas, dessa forma o passageiro tem opções de ônibus a cada 60 minutos (horas pares com a COT, ímpares com a Turil – ou vice-versa). Comprei o bilhete da Turil e depois tratei de procurar uma casa de câmbio. Acredito que por ser um país pequeno, moedas estrangeiras são muito aceitas em vários estabelecimentos. Eletrodomésticos e automóveis, por exemplo, têm seus preços estampados nas vitrines em dólar. Então é super comum para eles sair e trocar os pesos uruguaios pela moeda dos EUA ou por euros. E também facilita a vida dos turistas brasileiros e argentinos, que vendem reais e pesos argentinos com a mesma praticidade. Há casas de câmbio (no plural) em qualquer centro comercial do Uruguai. Dentro do shopping, encontrei duas comprando real por UY$ 7,40 (sempre lembrando: valores de fevereiro de 2016). Resolvi sair e dar uma pesquisada nas ruas do entorno. (Dica: o guarda-volumes da Tres Cruces oferece duas horas grátis para passageiros que apresentam passagem de ônibus comprada para o mesmo dia. Eu só fiquei sabendo disso depois e acabei carregando as malas comigo debaixo daquele sol descomunal.) Encontrei mais três com o mesmo preço, então conclui que o preço era tabelado pela região e optei pelo conforto do ar condicionado. Acabei não almoçando, comprei só uma água e um pacote de Lays no supermercado que fica dentro do shopping porque já estava muito próximo do horário de saída do ônibus.

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Parte do saguão do Terminal Tres Cruces visto do piso superior, onde está o shopping

E ainda bem que fiz isso! Para quem está acostumado com os tradicionais atrasos nas rodoviárias brasileiras, foi uma surpresa quando às 15h em ponto o motorista fechou a porta e engatou a marcha à ré. Foram pouco mais de duas horas de viagem pela Ruta 1 e acabei pegando no sono (dois dias depois eu me arrependeria disso) numa parte da viagem. O ônibus, como todos os outros de turismo que vi por lá, tinha ar condicionado, mas o wi-fi não funcionava. Fui à pé da rodoviária de Colônia até o El Viajero Hostel, onde fiquei hospedado. Dei uma ajeitada nas minhas coisas, deitei um pouco, coloquei um chinelo e saí para um “reconhecimento do território”.

Colônia é uma típica cidade de interior. Muitas ruas residenciais semidesertas e um silêncio espetacularmente calmo. Vez ou outra um cachorro latia, um carro ou uma moto passava. Mas em geral era o só o barulho do vento na copa das árvores. Desci até a beira do rio da Prata e me deparei com um cachorro que revirava na grama. Não demorou muito e ele veio pro meu lado para me cumprimentar. Foi só uma espécie de “seja bem-vindo à minha casa” e ele saiu, procurando uma parte mais confortável do gramado. Aos poucos eu fui descobrindo que ele era só um entre tantos. Colônia é repleta de cães vira-latas nas ruas. Todos bem cuidados e aparentemente limpos. Os moradores cuidam e alimentam todos. A cidade é dona dos cachorros e os cachorros são donos da cidade.

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Primeiro cão que encontrei em Colônia, segundos antes dele correr pelo gramado pra trocar uma ideia comigo

Andando mais um pouco, o contato com os primeiros pescadores. Sentados nas pedras, tomando mate e apreciando a vista do rio que mais parece um mar de tão extenso. Mais alguns passos e cheguei ao Porton de Campo, que dá acesso à parte histórica de Colônia, com suas ruas de paralelepípedos irregulares e casas rústicas. À beira-rio existem vários mirantes e restaurantes, mas preferi seguir andando até o píer do Yatch Club para aguardar o pôr-do-sol. Simplesmente incrível!

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Poderia ser um quadro, mas é pôr-do-sol no Yatch Club de Colônia

À noite, voltei para o hostel e na hora do banho… cadê a água quente? Não teve reza brava que fizesse a água esquentar. Por sorte, estava muito calor e foi possível tomar banho frio sem muito sofrimento. Saí pra experimentar o famoso chivito (uma espécie de “x-burguer com bife”, só que três vezes maior), voltei e fiquei um tempo deitado na cama. No beliche ao lado, havia um casal de alemães. Ela estava tomando banho e ele lendo um livro. Eis que surge uma “simpática” barata. O cara ficou em pânico e tentou espantar com o tênis porque não queria “sujá-lo”. Deu certo porque ela foi dar um passeio no corredor. Porém… logo ela voltou e se enfiou no meio dos lockers sob as camas. Nisso, saiu a alemã do banheiro. Ela ficou meio decepcionada e eu fui pedir um inseticida na recepção (eles nem sabiam o que era isso). O cara foi lá e jogou o spray pelos lockers, a barata deu um rolê pela minha mala e escapou pra baixo da cama deles. Ela histérica, ele em pânico. Abri uma das gavetas e dei o golpe fatal com o chinelo. Enquanto isso, a Tati, amiga brasileira que conheci por lá, estava dormindo em outra cama. Ela levantou a cabeça tentando entender o que acontecia e quando viu que era só uma barata voltou a dormir. Alemanha 7×2 Brasil.

 

Dia 2 – O tempo passa mais devagar em Colônia. Certeza.

 

Quando fui sair do quarto no dia seguinte, dei de cara com uma goteira gigantesca na porta. O corredor estava encharcado e quando olhei pro teto, bem… constatei que a estrutura não estava bem conservada. Chovera forte durante a madrugada, algumas pessoas até relataram durante o café da manhã que acordaram assustadas com os trovões e a ventania. Eu, cansado, sequer notei. Saí logo cedo com o intuito de fazer o roteiro dos museus pela manhã, almoçar e aproveitar a tarde para ir à Plaza de Toros, à Playa Real de San Carlos e ao Museo Paleontológico, que ficam mais afastadas (há um ônibus que sai da General Flores, avenida principal de Colônia, mas também há diversas locadoras com carrinhos elétricos). Fui andando pelas ruas desertas, alguns cães me seguiram e vieram trocar ideia, tirei algumas fotos e quando cheguei à porta do Museo Municipal por volta de 9h15, dei de cara com as portas fechadas e a placa com o horário de funcionamento: das 11h15 às 16h45.

Aproveitei, então, para andar mais um pouco e já comprar a passagem de volta para Montevidéu no dia seguinte. Na volta da rodoviária, passei pela General Flores desde o começo, onde fica o centro comercial. Pouquíssimas lojas estavam abertas num dia de semana e o movimento era digno de um feriado em São Paulo. Algumas vitrines tinham promoções de volta às aulas (depois descobri que o calendário escolar por lá vai de março a dezembro e as crianças tem dois meses e meio corridos de férias durante o verão – do meio de dezembro ao fim de fevereiro) mas praticamente todas estavam cerradas. Segui até o fim da avenida sem pressa e cheguei à uma prainha – ou o que restara dela. No dia anterior, havia banhistas, cães e crianças brincando na areia e nas pedras mas a forte chuva fizera o nível do rio subir e o espaço de lazer havia virado água, literalmente.

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O rio da Prata antes e depois do dilúvio. No primeiro dia, crianças, cachorros e pescadores aproveitavam as pequenas praias em meio às pedras. No dia seguinte a chuva havia inundado as pequenas áreas de lazer

Voltei à Plaza Mayor, onde fica o Municipal e aguardei mais um pouco até o horário de abertura. De repente, os turistas começaram a brotar. Concluí que todos estavam em Buenos Aires e chegaram no primeiro barco da Buquebus. No Museo Municipal é possível comprar um bilhete que vale para conhecer sete ou oito museus do centro histórico por módicos UY$ 50. Mas eles funcionam em rodízio, ou seja, cada dia um ou dois deles ficam fechados. Não consegui ir ao Museo Portugues e ao Español. O Municipal é o mais interessante de todos, tem diversas peças antigas que ficavam nas casas nobres durante o período em que Colônia foi disputada por portugueses e espanhóis, fósseis de animais pré-históricos e animais empalhados encontrados na região.

Logo ao lado, fica o Museo Casa de Nacarello, que se resume a três cômodos que retratam como eram as casas mais humildes da época. Cinco minutos de visita. O Archivo Regional tinha apenas uma pequena exposição. O Museo do Azulejo também tem só duas salas cheias de… azulejos. E o Museo Indígena retrata um pouco a memória das tribos que habitavam os pampas antes da ocupação europeia. Fiz esse roteiro em menos de duas horas. Depois foi a vez de conhecer El Faro. A marinha uruguaia cobra uma quantia simbólica para visitação, uns 20 e poucos pesos. Lá de cima é possível ter uma visão panorâmica de todo o Departamento de Colônia e do rio da Prata. Não. Não foi possível avistar a outra margem, no lado argentino.

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O Museo Municipal, principal de Colônia

Como as cotações em Colônia não eram favoráveis (R$ 1 por UY$ 7) e voltaria a Montevidéu no dia seguinte, achei melhor não cambiar na hora do almoço. Na noite anterior, havia conseguido pagar o jantar com cartão de crédito normalmente, então só levei o cartão dessa vez. Parei num restaurante que já havia chamado minha atenção no dia anterior e logo que sentei a garçonete já mandou um “non aceptamos tarjetas” antes mesmo que eu pudesse falar alguma coisa. Achei que era por burrice dos donos ainda trabalharem só com dinheiro numa cidade turística em pleno 2016 e fui para um bar à beira-rio que também havia visto um dia antes. Logo de cara já perguntei se aceitava cartão, porque vai que… A mulher, supersimpática, disse que sim. Pedi um chivito gigantesco e uma garrafa de Pilsen. QUE CERVEJA! É a Skol deles, a mais vista nos bares e a mais barata. E é muito melhor do que qualquer cerveja “popular” do Brasil. E se você pensa que vai ao Uruguai tomar Norteña por um preço mais barato do que aqui, já fica o aviso: é praticamente impossível encontrá-la nos bares e os preços são bem semelhantes aos daqui nos supermercados. Mas a Pilsen é tão boa quanto!

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O generoso chivito e a espetacular Pilsen. Nem um pouco saudáveis, mas totalmente indispensáveis

Comi devagar, aproveitando a paisagem e curtindo o tempo passar. À essa altura eu já havia desistido de ir à Plaza de Toros e aos pontos turísticos mais distantes. O melhor de Colônia é isso: ficar sentado sem fazer nada vendo o tempo passar vagarosamente. É outro ritmo. Não há pressa naquele lugar.

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A vista durante o almoço

Na hora de pagar, apresentei meu cartão à moça, que torceu o nariz e disse que não aceitavam Mastercard. Mesmo assim ela tentou na maquininha e… nada. Levou a máquina para dentro em busca de um sinal melhor, mas não adiantou. Eu me dispus a deixar minha carteira e buscar dinheiro no hostel. À essa altura ela já falava algumas frases em espanhol e outras em inglês, que pra mim era muito mais fácil de entender. Ela apontou para o rapaz que deveria ser outro funcionário e logo depois para um restaurante que ficava mais ou menos uns dois quilômetros para frente. Disse algumas coisas e eu entendi que ele iria me levar até lá para passar o cartão na maquininha deles e aí eles se acertariam. Ingênuo, entrei no carro caindo aos pedaços do cara, que também era gente boa. Chegando lá, ele desceu com um saco de folhas de mate e eu fui atrás. Ele entregou pro cara e falou que eu poderia voltar para o carro. Depois dele repetir umas três vezes eu consegui entender: ele iria me levar a um caixa eletrônico para eu sacar o dinheiro.

Ingênuo, de novo, saquei UY$ 750 sem saber que custo isso teria. (Tive que pagar a taxa do meu banco e o IOF.). Voltamos para o restaurante. A conta tinha dado UY$ 710, contando o serviço e o cubierto (custo pelo “aluguel” da mesa, cadeira, talheres, prato e copos do estabelecimento, que é normal lá). Entreguei o dinheiro e fiquei esperando o troco. E o cara do caixa ficou olhando pra minha cara. O motorista começou a tentar me explicar em espanhol e eu boiando. Chegou a garçonete, agora com cara fechada, e falando em inglês que eu tinha que pagar pelo fato do cara ter me levado ao banco, sendo que eu nem tinha pedido para ir lá! Os outros dois caras também começaram a olhar feio e eu tentando argumentar. Quando vi que não teria jeito, deixei os UY$ 800 que eles haviam pedido na mesa e saí sem falar nada (divida esse valor por 7,5 e descubra o quanto eu paguei em reais por um lanche e um litro de cerveja).

Saí ainda chateado por ter tomado o golpe e logo fui abordado por um casal de brasileiros pedindo informações. Eu não estava muito a fim de falar, mas expliquei como funcionava o esquema de visitas aos museus. Eles estavam no mesmo bar e viram a confusão que aconteceu comigo. Depois disso, voltei para o hostel e não estava a fim de fazer mais nada. Encontrei a Tati e para desabafar tomamos mais uma Pilsen (que cerveja!!). Tomei outro banho gelado e quando saí, eis que encontro os dois amigos brasileiros que haviam me abordado na saída do bar, Silvio e Samara. Por coincidência, eles também estavam hospedados no El Viajero. Ficamos os quatro tomando algumas outras garrafas de Pilsen (que cerveja!!!!!!!) na calçada. Fui até um mercado e comprei um lanchinho barato para jantar, compensando o gasto a mais que tive no almoço. Depois de um tempo já começou a bater aquela sensação de tristeza por deixar Colônia na manhã seguinte.

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A “movimentada” General Flores, principal avenida da cidade

Meu único arrependimento durante toda a viagem foi o de ter subestimado a cidade, que é conhecida por muitos como apenas um bate-volta para quem vai a Buenos Aires. Colônia é muito mais que isso. Além de cidade histórica e ponto turístico, também é um estilo de vida. E deixar se levar por esse estilo de vida é a parte mais legal de ir para lá. O dolce far niente do lugar merece ser curtido ao máximo. Pelo menos dois dias inteiros de estadia são necessários. Se quiser alugar um carro e visitar as vinícolas de Carmelo (ouvi falar super bem da cidadezinha), acrescente mais um dia.

Não deixe de acompanhar as próximas postagens. No próximo post, dois dias em Punta del Este.

Texto e fotos by Rodrigo Masaia.

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4 Comentários

  1. Muito enriquecedora toda a narrativa. Com certeza da vontade de fazer as malas e partir para essa aventura.

     
    1. Obrigado, Luciana! Não perca tempo, vale muito a pena!

       
  2. Muito legal o post do nosso novo colega viveajante…sua narrativa é preciosa em detalhes o que, além de dar mais veracidade aos fatos, enriquece o texto e torna sua leitura muito agradável…Parabéns…!!!

     

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